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20 de Julho, 2021

Governo admite à CPI que remédios do ‘kit Covid’ não funcionam

O Ministério da Saúde admitiu, em documentos enviados à Comissão Parlamentar de Inquérito – CPI da Covid-19, que os medicamentos usados no chamado “kit Covid” como cloroquina, hidroxicloroquina, azitromicina, entre outros, não funcionam contra a doença.

A pasta encaminhou à Comissão duas notas técnicas que afirmam que as drogas “foram testadas e não mostraram benefícios clínicos na população de pacientes hospitalizados, não devendo ser utilizadas”.

Os medicamentos foram amplamente indicados pelo presidente Jair Bolsonaro e por membros da pasta, como a secretária de Gestão do Trabalho e Educação do Ministério, Mayra Pinheiro. A servidora – conhecida como “Capitã Cloroquina” – foi para Manaus, no Amazonas, em janeiro deste ano, antes do colapso da saúde nos hospitais do estado, e confirmou em depoimento à CPI que era preciso fornecer esses medicamentos do chamado “tratamento precoce” aos pacientes.

As drogas também foram defendidas em outros depoimentos, como no caso da médica Nise Yamaguchi, que é apontada como um dos membros do chamado “gabinete paralelo” que orientava Bolsonaro.

O medicamento custou milhões aos cofres públicos – A cruzada de Jair Bolsonaro em prol de remédio sem eficácia comprovada movimentou a máquina governamental e custou milhões aos cofres públicos. Mesmo diante de sucessivos estudos e pesquisa comprovando a ineficácia da cloroquina e da hidroxicloroquina no tratamento contra a Covid-19, o governo Bolsonaro gastou dinheiro público e distribuiu o medicamento em larga escala no SUS. Ao mesmo tempo, promoveu seu uso no site do Ministério da Saúde, negociou com os estados a isenção de seu ICMS, recebeu doações de milhões de unidades dos Estados Unidos e o levou para longínquas comunidades indígenas da Amazônia.

Até janeiro deste ano, os gastos da União com cloroquina, hidroxicloroquina, Tamiflu, ivermectina, azitromicina e nitazoxanida somam pelo menos R$ 89.597.985,50, segundo levantou a reportagem da BBC News Brasil por meio de fontes públicas.

Uma das ações do governo foi o lançamento em 14 de janeiro de um aplicativo chamado TrateCOV para profissionais de saúde que sugeria a indicação para covid-19 de remédios como hidroxicloroquina, cloroquina, ivermectina, azitromicina e doxiciclina para qualquer idade, incluindo bebês. Com a repercussão negativa, o app foi retirado do ar. Quatro dias depois, diante de uma série de contestações, Pazuello tentou acertar o discurso, recorrendo à mentira. “Falamos de atendimento precoce. Não de tratamento precoce”, disse o então ministro da saúde.

Também foi investido milhões para propagar os medicamentos. A Secretaria de Comunicação do governo Bolsonaro gastou pelo menos R$ 23,4 milhões em campanhas publicitárias para divulgar o chamado “tratamento precoce” em emissoras de rádio e televisão e em mídia externa como outdoors e paradas de ônibus. O Ministério das Comunicações determinou que o maior contrato, no valor de R$ 1,31 milhão, fosse com a TV Record, ligada à Igreja Universal e simpática a Bolsonaro.

A lista mostra também que o governo divulgou a mensagem do tratamento precoce em diversas rádios FM do Amazonas logo antes do estado atingir o pico da segunda onda de Covid-19. Em janeiro de 2021, o Ministério da Saúde distribuiu 120 mil comprimidos de hidroxicloroquina na capital do Amazonas.

Desinformação mata – Um levantamento do jornal Folha de S. Paulo mostrou ainda que farmacêuticas faturam mais de R$ 1 bilhão com as vendas do chamado “kit Covid”. Uma delas, a EMS, registrou crescimento de 709% em 2020 em relação ao ano anterior, o que significou um lucro de R$ 142 milhões.

Do outro lado das vendas, com na época mais de 482 mil mortos, a avaliação da cientista Natalia Pasternak à CPI, foi a de que “a crença de que existe uma cura simples, barata, que seria o sonho de todos nós, levou as pessoas a um comportamento de risco”. De acordo com a especialista, a postura do governo “confundiu as pessoas em relação à gravidade da doença”. A aposta a todo custo também fez “aumentar o número de vítimas da doença do novo coronavírus”.

“Eles morreram de desinformação”, afirmou Pasternak em seu depoimento. “Entre as mais de 482 mil vidas perdidas, parte são de vítimas que não adotaram as recomendações e acreditaram em uma cura falsa e milagrosa”.

Fonte: Com Nexo Jornal, Rede Brasil Atual, Isto É e BBC Brasil
 
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