Sindisaude
54 3221.7453
54 9635.0765
13 de Novembro, 2020

Gravidez na adolescência é 'fábrica de pobres' na América Latina, afirma ONU

Estudo da organização mostra que as mães adolescentes têm três vezes menos chance de ter um diploma e ganham, em média, 24% menos do que mulheres que tem filhos após os 20 anos.

A gravidez na adolescência pesa na vida de milhares de jovens e perpetua a pobreza na América Latina, além de gerar milhões de dólares em gastos que poderiam ser evitados, alerta a Organização das Nações Unidas – ONU em um estudo apresentado na quarta-feira, 11.

“A gravidez na adolescência e a maternidade precoce são fenômenos que têm forte impacto na trajetória de vida de milhares de mulheres na América Latina”, diz o relatório do Fundo de População das Nações Unidas – UNFPA. Os efeitos dessas gestações precoces “são múltiplos e se estendem tanto na escolaridade quanto no mercado de trabalho, na saúde e até nas economias nacionais”, acrescenta o documento.

“A gravidez na adolescência é uma fábrica para os pobres na América Latina”, disse Federico Tobar, Conselheiro Regional do UNFPA, à agência AFP.

O estudo, intitulado “Consequências socioeconômicas da gravidez na adolescência em seis países da América Latina e Caribe”, analisa a situação na Argentina, Colômbia, Equador, Guatemala, México e Paraguai.

De acordo com o relatório, as meninas e adolescentes mães tendem a abandonar a escola para criar os filhos, principalmente em famílias com menos recursos, o que se traduz em maior dificuldade de estudar e encontrar um emprego bem remunerado.

Quase metade das mães com idade entre 10 e 19 anos fazem exclusivamente tarefas domésticas e têm três vezes menos chances – 6,4% contra 18,6% – de obter um diploma universitário do que aquelas que adiaram a maternidade, assim como ganhavam em média 24% menos.

Além disso, as mulheres que têm filhos depois dos 20 anos ganham em média US$ 573 a mais do que aquelas que são mães antes dessa idade. Essas circunstâncias condicionam a independência das mulheres, o que as torna mais vulneráveis à violência de seus parceiros.

Despesas milionárias – O estudo também detalha os custos do tratamento da gravidez na adolescência nos países latino-americanos. O UNFPA alerta para a perda de renda que isso implica para os estados, uma vez que a gravidez na adolescência compromete a participação dessas mulheres no mercado de trabalho e sua contribuição para o sistema tributário.

Os seis países do relatório “têm um custo associado à gravidez na adolescência e maternidade precoce da ordem de US$ 1.242 milhões, o que equivale a 0,35% do PIB desses países”, diz Tobar.

O relatório detalha que em 2018 os seis países estudados deixaram de arrecadar US$ 746 milhões em impostos, cerca de US$ 110 por mulher, já que as mães adolescentes pagam menos impostos e têm menos consumo devido às suas condições sociais e de trabalho.

“Se pudermos prevenir a gravidez na adolescência, todo mundo ganha, o Estado ganha, o sistema de saúde, a arrecadação, mas fundamentalmente ganhariam as mulheres e seus filhos porque estamos assumindo que a grande maioria dessas crianças viverá abaixo da linha da pobreza”, afirma o conselheiro da ONU.

Iniciação sexual sem anticoncepcionais – De acordo com o UNFPA, a América Latina tem a segunda maior taxa de fecundidade – 66,5 por 1.000 – do mundo entre as mulheres de 15 a 19 anos. República Dominicana – 100,6, Nicarágua – 92,8, Guiana – 90,1, Guatemala – 84, Guiana Francesa – 82,6, Venezuela – 80,9 e Panamá – 78,5 têm as taxas mais altas.

Dos seis países do relatório, o índice mais alto é apresentado pela Guatemala, seguida pelo Equador – 77, México – 66, Argentina – 64, Paraguai – 60 e Colômbia – 57, onde, por exemplo, uma em cada cinco adolescentes é mãe ou está grávida.

O Brasil, que não participou do relatório, tem 68,4 bebês nascidos de mães adolescentes a cada mil meninas de 15 a 19 anos, segundo a Organização Mundial da Saúde – OMS.

Segundo especialistas, a gravidez precoce na América Latina apresenta vários aspectos, embora se deva principalmente à ausência de educação sexual abrangente, desconhecimento, falta de acesso a métodos contraceptivos e barreiras culturais.

Em muitos países, é até proibido que as instituições públicas distribuam esses métodos anticoncepcionais, denuncia o UNFPA. “A maioria dos adolescentes tem sua iniciação sexual sem o uso de anticoncepcionais”, lamenta Tobar.

Além disso, as meninas geralmente ficam grávidas como resultado de estupro por membros da família em casa ou conhecidos. Com o isolamento social na pandemia e as escolas fechadas, muitas vezes isso significa que elas podem estar presas em casa com membros abusivos da família. “Em gestações que ocorrem em meninas com menos de 15 anos de idade ou até mais jovens, cerca de 75% estão relacionadas a estupro e abuso infantil”, disse Tobar.

No Brasil, pela legislação, a conjunção carnal ou prática de ato libidinoso com menor de 14 anos, sendo irrelevante eventual consentimento da vítima para a prática do ato, sua experiência sexual anterior ou existência de relacionamento amoroso com o agente, é estupro de vulnerável.

Fonte: O Globo
VOLTAR PARA LISTA DE Banner Notícias